Com o pé na moda

Neta do fundador, Cristine Grings assumiu a presidência da Piccadilly e fala sobre como é estar à frente do negócio
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Em 1955, Almiro Grings abriu uma pequena fábrica de sapatos em Igrejinha, cidade de colonização alemã no Rio Grande do Sul, que tem hoje cerca de 40 mil habitantes. Com uma produção diária de apenas 12 pares (hoje são 50 mil), ele não imaginava que sua marca, batizada de Piccadilly três anos depois, se tornaria uma potência da indústria calçadista brasileira e, mais que isso, seria comandada por mulheres. Pai de três filhos homens, que viraram sócios da empresa nos anos 70, ele torcia pela chegada de um neto para garantir a continuidade do negócio. Mas ganhou duas netas em sequência e se desesperou com o futuro da marca – ter mulheres em cargos de chefia era algo impensável para um empreendedor de sua geração. Almiro seria avô de mais três meninas e dois meninos, sete no total. O patriarca morreu em 2000, uma década e meia antes de ver a neta Cristine Grings, 37 anos, então diretora de marketing da empresa, assumir a presidência em 2015, no aniversário de 60 anos da marca. Também em 2015, suas primas foram promovidas a cargos de direção, marcando a transição de comando da segunda para a terceira geração. “Se estivesse vivo, meu avô veria que não tinha motivos para se preocupar e estaria orgulhoso. Somos exceção numa indústria comandada por homens. E, na Piccadilly, as promoções acontecem por mérito, jamais por gênero”, afirma Cristine. Ela assumiu o lugar do tio, Paulo Grings, que passará a presidir o Conselho de Administração. 

“Se estivesse vivo, meu avô veria que não tinha motivos para se preocupar e estaria orgulhoso. Somos exceção numa indústria comandada por homens. E, na Piccadilly, as promoções acontecem por mérito, jamais por gênero.”

Na contramão de muitos herdeiros com vaga garantida nos negócios da família antes mesmo de sair da faculdade, Cristine optou por iniciar sua vida profissional fora da empresa. Formou-se em Publicidade e fez MBA em Marketing. “Cresci dentro da fábrica, via meu pai (Tibúrcio Grings, ex -diretor de desenvolvimento, que deixou a empresa em 2012) trabalhar enquanto desenhava na mesa dele. Adorava aquele universo. Mas não queria ser vista como alguém que havia entrado ali simplesmente por ser filha de um dos donos”, explica. Antes de ser convidada pelo tio, em 2004, para assumir o cargo de gerente de marketing, ela foi sócia de uma agência de publicidade e trabalhou em outras companhias. 

Quatro anos depois, Cristine e seus primos, que entraram junto com ela na Piccadilly, foram promovidos a diretores juniores. Hoje, dos sete postos de comando da marca, cinco estão nas mãos da terceira geração da família Grings, sendo três mulheres. Essas mudanças fazem parte de um trabalho de governança corporativa iniciado há quatro anos para preparar a transição da direção da empresa. “Foi um processo gradual conduzido de maneira muito sábia pelo meu tio, pois historicamente a terceira geração é conhecida por quebrar os negócios. Fomos aos poucos nos inteirando das áreas. Ser escolhida para o cargo de presidente e ter minha prima Ana Carolina como vice-presidente foi muito gratificante para mim.” Seguindo a cartilha do avô, do pai e dos tios, a atual presidente se habituou a um ritmo de trabalho intenso antes mesmo de assumir o novo cargo. 

Seu expediente vai das 7h30 às 18h, com uma pausa sagrada para o almoço em casa com o marido e as filhas Isadora, de 10 anos, e Valentine, de 5, vantagem de quem mora em cidade pequena e não sabe o que é engarrafamento. Com o dia a dia mais atribulado de dois anos para cá, ela passou a fazer ginástica antes de ir para a fábrica. “O tempo que dedico a mim é o do trabalho. O restante é para a família”, diz. Presente em 100 países e com uma produção anual de 7,5 milhões de pares, a Piccadilly tem seu DNA associado a sapatos confortáveis. Foi Tibúrcio Grings quem introduziu esse conceito na empresa, oferecendo diferenciais tecnológicos na produção e nos acabamentos. Hoje são cinco linhas especiais, entre elas a Dance, com calçados de sola antiderrapante para quem gosta de dançar, a Joanete, com modelos que têm mais elasticidade nessa região do pé, e a Tech Tricô, que traz tênis sem emendas nem forração interna e com tecido que mantém os pés ventilados. A partir de 2010, a marca começou um processo de reposicionamento para se aproximar do universo da moda. Os modelos mais tradicionais, focados nas consumidoras acima dos 40 anos em busca de calçados funcionais, confortáveis e discretos, passaram a dividir espaço nas vitrines com coleções de design mais arrojado. Ao assumir a presidência, Cristine consolidou este processo após a conclusão de uma pesquisa minuciosa feita nos últimos dois anos por uma consultoria de branding. A apresentação para lojistas e funcionários foi em maio deste ano e trouxe, entre as novidades, um novo logotipo, com identidade mais jovem e que remete à origem da marca: uma seta estilizada inspirada na estátua de Eros, localizada na praça Piccadilly Circus, em Londres, local que inspirou o nome da empresa. Por coincidência, a primeira leva de sapatos exportados foi para a Inglaterra, há 25 anos – hoje a marca exporta 30% de sua produção. Apesar das mudanças, o portfólio de produtos se manteve . São cerca de 60 linhas, com 300 modelos por estação, que não deixam o conforto de lado. Exemplo recente foi a criação da tecnologia Alarm Free para o verão 2016, pensada para mulheres que viajam muito ou trabalham em aeroportos. Trata-se de uma palmilha feita com material ultra resistente e leve que dispensa o uso da alma de aço, para impedir a flexão excessiva do solado e que faz disparar o alarme nos detectores de metais. “Não abrimos mão desse DNA, mas hoje existem muitas marcas oferecendo a mesma coisa. Para nos diferenciar, precisávamos ir além, criando um discurso mais emocional, conectado com a mulher de hoje e mais próximo da moda. E romper de vez a tradição de que os sapatos bonitos são também os mais desconfortáveis”, resume.

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