Passo a passo

Fundador da Democrata, o mineiro Urias Cintra relembra sua trajetória empreendedora
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Self-made man por trás do Democrata, Urias Francisco Cintra percorreu um caminho repleto de altos e baixos até se tornar um bem-sucedido empresário da indústria brasileira de sapatos. Depois de estudar até a quarta série do ensino fundamental, ele começou a trabalhar como sapateiro para ajudar a família, se apaixonou pelo ofício e, com seu espírito empreendedor nato, fundou uma marca que virou referência em calçados masculinos de couro. Hoje, sua empresa exporta para mais de 50 países nos cinco continentes e tem faturamento anual de R$ 230 milhões. Oitavo filho de uma prole de 12 irmãos, em 1965,aos 12 anos, ele deixou o pequeno município de Claraval, no sudoeste mineiro, para viver com a família em um sítio em Franca, no interior de São Paulo, a 400 quilômetros da capital. A renda principal deles vinha das plantações de milho, feijão e arroz. Seis meses depois da mudança para a cidade, seu pai morreu repentinamente, e a mãe assumiu o sustento dos filhos. O menino, então, sugeriu que ela também produzisse salgados, para que pudesse vender e ajudá-la. Para contribuir com as despesas da casa, Urias entrou cedo no mercado de trabalho. Ele conseguiu seu primeiro emprego como sapateiro na fábrica Spessoto Calçados. “Franca já era um polo calçadista importante na época e contava com grandes indústrias. Comecei costurando sapatos”, lembra. Cinco anos depois, apaixonado pela profissão e já com domínio total do processo de fabricação, Urias decidiu abrir a própria empresa de calçados com o irmão José. Ele ficava responsável pela produção dos sapatos, e o irmão cuidava do negócio. “Tínhamos um bom retorno financeiro, mas não soubemos administrar, nos faltava conhecimento de gestão.”

“Franca já era um polo calçadista importante na época e contava com grandes indústrias. Comecei costurando sapatos.”

Com o fim da empresa, Urias passou por outras fábricas, onde ocupou cargos de sapateiro, gerente e supervisor-geral, mas nunca perdeu o espírito empreendedor. Em 1983,decidiu lançar uma nova marca “agora com cabeça de gestor e plano de negócios, porém sem capital de giro”. E começou, assim, um novo capítulo nos fundos de sua casa em Franca.Pouco tempo depois, contratou dois funcionários, alugou um galpão de 100 m2 , fez alguns empréstimos e fundou a Diplomata Calçados. “Eu estabeleci uma meta: iniciar minha produção com dez pares diários e, quando chegasse aos 40 pares, deixaria de produzir com capital de terceiros.” O plano funcionou. Dois anos depois, ele já mantinha a marca apenas com receita própria. Na mesma época, foi procurado pelo advogado de uma empresa de sapatos: o nome Diplomata Calçados já estava registrado, e ele teria de escolher outro. “Disse que mudaria se me apresentasse uma sugestão de nome e logomarca que me agradassem. Então, ele sugeriu ao Democrata por se parecer com o anterior. Topei na hora.” A marca, cuja fábrica principal fica em Franca, foi uma das pioneiras em associar o conforto dos tênis aos calçados sociais, investindo em tecnologias como palmilhas com bolhas de ar que absorvem o impacto, saltos internos e um couro com elasticidade que se ajusta perfeitamente aos pés. A Democrata também apostou alto em suas campanhas, contratando personalidades brasileiras como os atores Cauã Reymond e Reynaldo Gianecchini, a apresentadora Adriane Galisteu, única mulher até hoje a anunciar os sapatos masculinos da empresa, além do fotógrafo espanhol radicado no Brasil J.R.Duran. Até 1993, quando a produção chegava a 800 pares por dia, Urias tocava o negócio praticamente sozinho. Os irmãos Maria Aparecida e Carlos Roberto passaram a integrar a equipe desde então, como contadora e diretor financeiro respectivamente. 

Em outubro de 1997, ele inaugurou a segunda fábrica da marca,em Camuci, no Ceará, e, em 2006, a terceira, na cidade de Santa Quitéria,no mesmo estado. Aos poucos,os herdeiros de Urias começam a assumir cargos na empresa.Sua filha Kamila, formada em moda pela Central Saint Martins, em Londres, passou a comandar as equipes de estilo e marketing. A mais nova, Cintia, cursa engenharia de materiais na mesma instituição e vai entrar para o time em breve. A Democrata tem hoje mais de 1.800 funcionários fixos e nenhuma etapa da produção é terceirizada: a marca prefere cuidar de todas elas para manter o controle de cada detalhe, da produção ao marketing. Atualmente, são 31 lojas franqueadas no Brasil e quatro no exterior: Argentina, Equador, Paraguai e Indonésia. As exportações, que correspondem a 23% da produção, começaram em 1992 pelos Estados Unidos.

 Presente desde a primeira edição da revista Vogue Brazilian Footwear, Urias diz que a publicação tem sido uma aliada importante na divulgação da marca e na consolidação de sua imagem no mercado. Com quatro segmentos de produtos – Denim, Garage,  Metropolitan e Smart Comfort – e mais de 45 linhas diferentes, a Democrata tem alguns projetos em curso para 2019,como ampliar o número de lojas franqueadas e explorar um mercado ainda inédito em seu portfólio, que o empresário prefere manter em sigilo por enquanto. Em Franca, onde Urias vive com a mulher, Maria Helena, e os filhos – ele também é pai de Frederico –, o dia começa cedo. O empresário acorda às 6h para fazer musculação e corrida e não abre mão das sessões diárias de meditação antes de ir para o trabalho. Sua vida mudou muito desde a chegada à cidade há mais de 50 anos. Mas ele soube preservar o jeito simples do garoto vendedor de salgados sem imaginar que chegaria tão longe. “Não me considero um industrial. Até hoje, quando me perguntam qual é a minha profissão, digo que sou sapateiro.”

Best sellers
A linha denim, de sapatos despojados para o dia a dia, é um dos quatro segmentos de produtos da democrata, que fabrica modelos para todas as ocasiões, entre botas, mocassins, sandálias e oxfords.

No mundo
A Democrata tem hoje 1.800 funcionários, fatura R$ 230 milhões por ano e exporta para mais de 50 países. A marca é uma das pioneiras em associar o conforto dos tênis aos calçados sociais.

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